Manobras ousadas

– Vamos pedalar? – Ana Paula levantou o olhar da revista, afastou os cabelos da testa, pensou durante alguns segundos, o suficiente para que meus olhos se prendessem nos seus incompreensíveis olhos negros. Um dia pareciam implorar pelo beijo, no outro assumiam a ternura da adolescência que não pede nada mais do que carinho e amizade. 

– Não sei. Estou desanimada. – indolente, pensei. Eu começava a percorrer o caminho da leitura e descobria certas palavras. Bela e indolente.

– A gente vai perto. Só aqui pelo bairro.

– Tá bom. Vou pegar a bicicleta.

No início da década de 70, o asfalto começou a dominar algumas ruas dos bairros de Belo Horizonte. Trouxeram junto, para uma geração de meninos, o fascínio da velocidade. A gente se aventurava em manobras ousadas de bicicleta e skate que costumavam terminar em peles arranhadas ou ossos quebrados.

– Você não vai correr, vai? – gritou Ana Paula quando viu a minha bicicleta se distanciar um pouco. Parei de pedalar, pressionei levemente o freio até que a Monareta de minha amiga me alcançou. Andamos emparelhados por alguns quarteirões, as bicicletas no embalo da gravidade.

– Vamos andar no estacionamento da universidade.

– Não, é perigoso. Ainda está cheio de pedrinhas soltas. E eu já vi o que vocês fazem no estacionamento.

– Vamos. Você não precisa andar.

O estacionamento ainda estava em construção. Começava a partir do início dos prédios das salas de aula, em declive até o nível da rua. A descida começava forte e diminuía aos poucos até terminar num platô reto do lado direito, visto da rua. Uma imensa área livre, sem qualquer tipo de obstáculo, pois os carros ainda não podiam ocupar o estacionamento.

Deixei Ana Paula sentada no alto do estacionamento, na sombra de uma árvore. Ah, essa necessidade infantil, que nos persegue a vida inteira, de impressionar as mulheres que desejamos. Deixei a bicicleta descer sem pedalar e soltei os braços da bicicleta, abrindo-os em cruz, a velocidade aumentando cada vez mais, o vento batendo no rosto. Aos poucos, o atrito das pedras nos pneus e a diminuição do declive reduziam a velocidade.

A segunda manobra era o orgulho dos líderes da minha turma. Deixei novamente a bicicleta descer solta. Quando a senti em velocidade razoável, firmei as mãos no guidom, coloquei os pés na garupa e num movimento repentino, feito com agilidade e firmeza, fiquei em pé na garupa da bicicleta, os braços abertos novamente em cruz. Eu controlava os movimentos da bicicleta com o balanço do corpo. Pendia para um lado, para o outro, evitando que a bicicleta se desgovernasse, o mais leve desvio poderia provocar acidente grave.

Quase no fim do declive, quando a bicicleta já estava em velocidade perigosa, inclinei levemente o corpo para o lado esquerdo. Este movimento fez a bicicleta virar, percorrendo um grande arco até se posicionar no sentido contrário. A velocidade diminuiu aos poucos, pois ela começou a subir. Antes da bicicleta parar por completo, curvei o corpo até apoiar as mãos no guidom e me sentei no cilindro. Olhei para cima: Ana Paula estava em pé, ao lado da árvore.

– Você é doido. Vamos embora.

– Estou acostumado a fazer isso.

– É loucura. Vamos embora.

Saímos do estacionamento, entramos na rua em frente. Ana Paula pedalava de leve, silenciosa. Emparelhamos, ela fez gesto de jogar a bicicleta em cima da minha. Ela andava devagar pela rua plana. A tarde estava naquela hora em que as lâmpadas dos postes acendem automaticamente, confundidas pela penumbra. Ana Paula olhou para mim – aqueles olhos confusos.

Ela soltou a mão direita da bicicleta e a esticou em minha direção. Fiz o mesmo gesto com a mão esquerda, tentando tocá-la. Nossos dedos começaram a se roçar, toque intermitente, separados pelo movimento das bicicletas, voltando a se tocar, separados novamente pelo movimento das bicicletas, voltando a se tocar.

Oséias

Seus amigos de infância o conhecem por Enyr de Oséias. Muitos anos depois da época em que se passa essa crônica, a mulher dele ainda ri quando atende o telefone e ouve: “Posso falar com a Senhora Enyr?”. Ela reluta um instante e responde: “Aguarde um instante. Vou chamar o Senhor Enyr”. Mas na distante infância, um nome andrógino não importava para os pequenos amigos. Ele era o líder do grupo.

Os meninos se reuniam no fim de tarde para peladas de bola de meia. Enyr dividia os times. Os meninos discutiam se naquele dia de verão nadariam na pedreira ou na prainha. A decisão cabia a Enyr. Os meninos caminhavam em pé de guerra para o campo de batalha, rua de cima contra rua de baixo. Enyr à frente.

Órfão de mãe, era assim a infância, vida de menino do interior, o dia passado entre ruas, rios e brincadeiras. Os irmãos mais velhos, nas vezes em que eram chamados à rua para apartar brigas, acalmar vizinhos exaltados contra aqueles “moleques sem mãe”, reclamavam ao pai Oséias: “O Enyr precisa de uma boa surra”.

Meu avô Oséias. Nas férias de dezembro, a família saía de Belo Horizonte rumo ao interior. Difícil viagem de três horas nos precários asfaltos da década de 60, mais duas horas de terra, o valente Dodge rompendo buracos, deslizando na poeira ou na lama. Enyr, meu pai, cuidadoso ao volante, conhecedor dos atalhos daquela quase estrada. Quando chegávamos, o avô estava à porta, um sorriso nos lábios. Pegava um dos netos e o envolvia num abraço demorado, o outro, menor, enroscado em sua perna esperava a vez.

Essas são as imagens que tenho de meu avô, construídas mais pelas conversas com meu pai do que por minhas próprias lembranças. Quando meu avô morreu, eu tinha apenas cinco anos de idade. Imagino as cenas da infância de meu pai no interior como se elas estivessem dentro de mim. Na verdade estão. Carrego memórias de família e hoje escrevo a história que meu pai me contou para que eu conhecesse o meu avô.

“O Enyr precisa de uma boa surra”, diziam os irmãos mais velhos ao pai Oséias. Nesse dia, quando o pequeno Enyr se sentia merecedor de uma boa surra, sabia que devia retardar sua volta para casa. Entrava em casa já de noite, silencioso. Oséias esperava sentado em sua velha cadeira, na sala, um livro no colo, os óculos na ponta do nariz. Ele levantava os olhos por cima das lentes e dizia, “Se te pego moleque.” Voltava os olhos para o livro, murmurando “Se te pego moleque….”

Quando ele fechava o livro, a casa já dormia. Meu avô trancava a porta da frente, olhava uma última vez para a rua deserta iluminada por estrelas. Caminhava pela casa, a madeira do assoalho rangendo com as passadas. Passava pelo quarto dos filhos e filhas, olhava um por um, ajeitava travesseiros e cobertas. Por último, entrava no quarto do filho caçula para deixar um beijo de bons sonos no rosto do moleque que dormia.

Primos do interior

A casa dos meus pais, em Belo Horizonte, era também a casa dos primos do interior. E das tias grávidas. As tias chegavam com barriga de nove meses, mãos nas cadeiras segurando todo aquele peso. No dia do parto, a mãe chamava o táxi, apertava a mão da grávida no banco de trás, esperava ansiosa no corredor do hospital, carregava o bebê para o berçário e respirava aliviada. As tias ficavam para o resguardo, depois iam embora, a mãe respirava aliviada de novo.

Os primos chegavam adolescentes, um ou outro nascera ali mesmo, com timidez do tamanho da cidade de onde vinham. O primo Luiz acabara de completar 18 anos: alto, magro, cabelos louros caindo lisos até os ombros. Era hora de trabalhar, desafogar a mesa dos pais, chegara a sua vez de ocupar o quartinho dos fundos da nossa casa, cômodo de cimento liso, telhado de amianto, apenas uma cama e cômoda para guardar as roupas. A simplicidade a mãe compensava com carinho, lençóis sempre brancos, cobertor quentinho para as noites de inverno, um prato de comida requentada quando ele chegava à noite.

Emprego na época não era tarefa das mais difíceis, bastava ter disposição e um pouco de instrução. Luiz entrou para o Banco Mercantil de São Paulo. Virou bancário de dia e de noite, pois passou a bater ponto também no salão de festas do sindicato, na Rua Tamoios, quase esquina com Avenida Paraná. E revelou sua criatividade para burlar porteiros em favor dos primos da cidade grande.

A entrada no salão de festas do sindicato só era permitida para os bancários. Luiz passou gilete na extremidade de sua carteirinha sindical, abrindo um rasgo imperceptível ao lado da foto 3×4. Nas noites de sábado, ele entrava primeiro no salão. Chegava na janela mais distante da escada de entrada e jogava a carteirinha. Meu irmão mais velho pegava, colocava a própria foto 3×4 em cima da outra. Entrava, voltava à mesma janela e jogava novamente a carteirinha. Era minha vez. A foto cuidadosamente encaixada por cima da outra.

A timidez do primo Luiz não combinava com suas artimanhas. Apaixonado pelo Botafogo e pelo Atlético, creio que na ordem contrária, ele comprou uma cota da Vila Olímpica, na época campo de treinamento dos jogadores do Atlético. A cota dava direito a colocar seus irmãos como dependentes. Luiz chegou na sede administrativa do clube com cópia da certidão de nascimento de três de seus irmãos, junto com três fotos: minha, do meu irmão e irmã. Durante muitos anos, eu e meus irmãos entramos no clube com aqueles nomes estranhos dos primos do interior ao lado das nossas fotos, correndo o risco de nos trairmos ao menor questionamento. Com o tempo, comprei minha própria cota e, orgulhoso pelo nome verdadeiro na carteirinha, continuei a frequentar aquele fascinante espaço, convivendo com meus ídolos do futebol: Toninho Cerezo, João Leite, Marcelo, inesquecível Reinaldo.

Mas Luiz era menino do interior. Nunca perdeu aquele jeito arredio, as palavras soando lentamente até a quarta ou quinta cerveja, aí as frases saíam aos trambolhões, a gagueira aumentando a cada dose. Ele pediu transferência para uma cidade menor e deixou o quartinho dos fundos livre para outros primos que também começaram a vida na cidade grande, dormindo naquele cômodo de telha de amianto. Nunca reclamaram do calor, das noites de inverno, de uma ou outra goteira no telhado que o pai corria para arrumar.

O quarto dos fundos da casa de minha mãe já não existe. Deu lugar a uma casa mais ampla. Muitos dos primos não vejo há tempos. Mas agora, nesta madrugada fria de junho, assim que recebo a notícia pelo telefone, penso que o quarto na casa da mãe foi mais do primo Luiz. Afinal, nossas imagens estiveram juntas naquelas noites no sindicato dos bancários, nossos nomes tinham o laço de sangue em todos aqueles sábados na Vila Olímpica. Éramos irmãos.

Para Luiz Roberto Burgarelli

Na hora do almoço

O termômetro da Praça Sete marca 36 graus. Tempo seco, sufocante, como as pessoas que se aglomeram nos pontos de ônibus, debaixo das marquises das lojas, nas calçadas, esperando o sinal verde para pisar no asfalto quente. A fumaça dos carros se mistura ao suor das pessoas, dos prédios, ao vapor do piche esmorecido, formando uma camada ameaçadora pouco acima de nossas cabeças, ar espesso e claustrofóbico, impedindo o mais leve vestígio da brisa que outrora andava livre.

Andar pelo centro da cidade na hora do almoço traz essa sensação de ultimato. Andar sem rumo, esperando o tempo passar. Desviar de prédios, de ônibus despejando gente, esbarrando em pedintes, camelôs, executivos, trabalhadores, desempregados, senhoras, crianças, adolescentes – gente despejada.

Entro no Mercado Central à procura de abrigo, santuário. Almoço um prato feito. Arroz, feijão, bife acebolado, ovo frito, pequena salada.  Três garfadas depois, meu estômago sente o peso da comida. Largo a comida, acabo de tomar a coca cola com gelo e limão. A avó recomendava a todos os netos durante o almoço de domingo, “é pecado deixar comida no prato”. Ela repetia a frase durante todo o almoço, enquanto os primos mastigavam devagar, empurrando sem vontade a comida goela abaixo, temendo um castigo desses que chegam sem aviso.

Penso em ficar recostado, entregue à tarde sem pretensão não fosse o relógio a lembrar das 14 horas, do cartão de ponto marcando o dia em minutos. Antes de voltar para o trabalho, dou a volta rotineira pelos mesmos corredores, pelas mesmas bancas, encontrando as mesmas pessoas cruzando caminhos já percorridos. É dos mistérios do Mercado Central. Você anda por um corredor, entra em uma encruzilhada para sair poucos passos à frente no lugar que acabara de percorrer e nem percebe que está olhando as mesmas barracas, lojas e quinquilharias que vira há pouco.

Paro em uma banca, fingindo interesse em um pequeno sino desses que se penduram em porteiras de sítio. Andreia toma uma limonada numa loja em frente, um grande copo de limonada que desaparece quase de um gole. A cabeça estendida para trás, os olhos fechados, o resto de gelo nos lábios. Lábios que trazem, por um momento, gostos passados.

– Tenho uma surpresa para você. – estávamos estirados na cama molhada de suor. Uma sensação de morte e redenção misturadas à grata irresponsabilidade do prazer vespertino.

Andreia se levantou, gotas de suor escorriam pelas suas costas, deslizando pelo contorno do corpo até se perderem. Andou nua pelo apartamento sem medo de janelas vizinhas, binóculos, lunetas. Ouvi barulho de geladeira, talheres na cozinha, pequenos estalidos de copos e pratos. Fechei os olhos na tentativa de guardar essas tardes de fuga.

Quando abri os olhos, Andreia estava ao meu lado com uma grande taça de sorvete coberto com camadas de chantilly. Mergulhados no creme, três morangos de um vermelho inebriante, exagerado como cena de cinema em technicolor dos anos quarenta. As mãos dela se sujaram no chantilly ao levar o morango à boca. Ela deixou metade do morango entre os lábios. Nossas bocas, dentes e línguas se misturaram na doce intimidade

Só agora reparo em um homem desconhecido ao seu lado. Ele acaba de tomar também seu copo de limonada. Os dois deixam os copos no balcão, se olham despretensiosos, trocam um beijo rápido. Dou graças por ela não se voltar em nenhum momento em minha direção. Assim posso acompanhá-los com o olhar. Caminham pelo estreito corredor do Mercado Central. Andreia com o braço enfiado entre a cintura e o braço do companheiro, como no mais singelo romance de Machado de Assis, até desaparecerem em uma das curvas.

Recoloco o pequeno sino no balcão. O relógio marca 13h55. Vou chegar atrasado hoje. Não me importa, vou aproveitar um pouco mais esse passar de horas desejando, como brisa que vem das montanhas, outros intervalos.

Chuva de setembro

João Nunes ajoelhou no meio da rua e abriu os braços para o céu, deixando a chuva bater em seu rosto, olhos fechados, agradecendo a dádiva. Depois de três meses de estiagem, a chuva vinha pesada naquela sexta-feira de setembro, pingos grossos formando uma enxurrada densa no canto do meio-fio, a água marrom de tanta poeira das ruas.

Um carro desviou de João Nunes, desvio tranqüilo, sem buzina, o motorista respeitando aquele gesto solene de agradecimento. Em poucos minutos a notícia espalhou pela rua.

– O João Nunes tá lá na rua tomando chuva.

– Vem ver o João Nunes pulando feito menino na enxurrada.

– Deus do céu! O João Nunes endoidou.

– Também, com uma mãe daquelas.

A mãe estranhou quando João entrou esbaforido em casa na noite anterior, pequenas gotas de suor escorrendo pela testa: “Amanhã tem que chover”. Perto dos quarenta e cinco anos, filho único, ele vivia com a velha mãe que insistia em recomendações como: “cuidado com as companhias”, “olha a hora, hein”, “vê se não dorme muito tarde”.

João foi para o quarto, ligou o computador, passou parte da noite no Google procurando simpatias, magias, promessas, qualquer coisa que fizesse chover na sexta-feira.

Na sexta-feira de manhã, chegou ao escritório com olhos vermelhos de sono. Olhava da janela o tempo: o céu de um azul desbotado, a paisagem densa de poluição, ar pesado, sequer uma nuvem no céu. Ao sair para o almoço, avisou à secretária que não voltaria à tarde. Em casa, almoçou na frente da TV, esperando a moça da previsão do tempo. “Uma pesada massa de ar quente impede a formação de chuvas no Estado. O tempo deve continuar quente e seco por todo o final de semana.” Ele largou o prato desolado, a mãe colocou a mão na sua testa buscando febre.

João Nunes foi para o quarto, deitou e adormeceu. O sono durou quase a tarde inteira, como se ele se entregasse de vez à inutilidade (assim ele pensava nesse momento) de sua vida. Acordou com um trovão ensurdecedor.

Correu para a varanda a tempo de ver as nuvens negras e densas se formando no céu com velocidade de efeitos especiais. Fechou os olhos sem acreditar e, quando os abriu, a chuva repentina já ecoava no telhado da casa. Saiu à rua, ajoelhou e abriu os braços agradecido.

Alguns meninos se juntaram a ele, pisando festivos nas poças d’água. As velhas donas de casa chegaram à janela, os maridos abriram os portões das garagens, o bêbado no boteco bebeu mais uma em homenagem à chuva. Naquela sexta-feira à tardinha, todos os moradores da rua saíram para ver João Nunes cantando e dançando feito maluco na chuva.

Todos, menos Sofia.

Sofia lia tranquilamente O Cão dos Baskerville no sofá quando o mesmo trovão que acordara João Nunes a assustou. Abriu as cortinas, entreabriu a janela o suficiente para sentir o saudoso cheiro de chuva. Respirou fundo, certa do que tinha a fazer. Fechou o livro, foi até o quarto e despiu-se, deixando as roupas caídas no chão, ao lado do espelho.

Ela enviuvara há cerca de um ano e meio. Seu marido tivera um infarto repentino, caíra morto na garagem a deixando sozinha, os dois filhos já casados.

Nunca trabalhara, completara o segundo grau pouco antes do casamento. Depois de casada, entregou-se à cuidar da casa e dos filhos. O marido atencioso, amável, vida sem incidentes, atrapalhada apenas pelos cada vez mais longos dias de estiagem. Sofia não suportava o calor, a falta de chuva, passava mal com o tempo seco.

Quando o marido morreu, continuou sua rotina: a casa, programas vespertinos de TV,  leitura de livros policiais, várias horas passadas na Internet, novela das seis, visitas semanais dos filhos. Vida tranqüila, sem incidentes. Até que João Nunes começou a tocar a campainha.

No princípio, ele vinha com cortesia saber se ela precisava de alguma coisa, como estava de saúde, “o tempo, deixe o tempo passar minha amiga Sofia.” Depois, pequenos atrevimentos: uma flor colhida no jardim da mãe, uma caixa de bombom, um livro de presente de aniversário. As visitas passaram a ter dia e hora: quinta-feira, às oito da noite. Nada de bebidas, apenas suco e refrigerante, um sentado de frente para o outro no sofá da sala. Amizade tranquila, às vezes perturbada pelo olhar direto,  em silêncio.

Certa noite, João Nunes falou de sentimentos e atreveu um toque nas mãos. Foi recusado. Insistiu com flores enviadas pelo correio, semanalmente. Versos de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade chegavam ao e-mail de Sofia. Convites para o cinema. Tudo inútil: os nãos de Sofia eram secos e objetivos. Os boatos começaram a circular pela rua, a viúva pensava em dar um basta em tudo. Mas continuava permitindo, sentia prazer naquele jogo e nunca fora mulher de se preocupar com a falação alheia.

Naquela quinta-feira de setembro, João Nunes chegou pontualmente. Sofia o recebeu com seriedade, estava, naquele dia, atormentada pelo tempo seco. Conversaram sobre pequenas coisas, os olhos dele não conseguindo se esconder do rosto, das pernas, do decote de Sofia.

– Eu quero fazer amor com você. – Sofia levantou-se ao ouvir essa frase tão cheia de propósitos. Seu marido nunca falara assim, eles eram tão silenciosos.

Ela chegou à janela. O vento quente de todas as noites, essa primavera sem chuva, esse calor insuportável, esses dias passando como se fossem os mesmos. Sofia voltou-se para João Nunes e prometeu:

– Se chover amanhã, venha à minha casa neste mesmo horário. Se chover amanhã.

Enquanto João Nunes sapateava na chuva, Sofia deixava a água morna do chuveiro molhar seu rosto, seus cabelos, seu corpo. Enquanto a rua agradecia feliz o fim da estiagem, contagiada pela alegria incompreensível de João Nunes, Sofia começava o longo e cuidadoso ritual da mulher se preparando para o amor.

Noite de lua cheia

Eduardo acordou e, em poucos segundos, rememorou a noite. Sempre ficava inquieto, cismava, quando ela dizia “é noite de lua cheia”. Com o tempo, descobriu que Marina, em noites destas, anda por outros mundos.

Ele acorda cedo. Ela, nem tanto. Libertou-se da coberta, notou as manchas de suor no lençol. Lua cheia. Dez minutos de água morna, depois a cozinha, o cheiro de café fresco…

Ouviu barulho. Foi até o quarto, Marina troca os lençóis, joga a roupa suja de lado. Ela nunca se importou com casa em ordem, coisas jogadas pelo chão. Enquanto ela penteia os cabelos, Eduardo deita na cama apenas para sentir o cheiro de cama e travesseiros novos.

Sentam-se juntos à mesa da manhã. Café com leite, um bolo de véspera, queijo derretido no pão. Caminham de mãos dadas até a banca. Compram a Folha de São Paulo, uma revista de decoração, outra de cinema.  Jornais e revistas de domingo. Caderno de esportes, cultura, política, rápido olhar pela economia, fotos de casas, de gente bonita do cinema, manhã que passa despretensiosa.

À tarde, depois do sono leve, um filme. Compram os ingressos, andam pelo shopping, minutos antes da sessão começar, entram. Depois, a praça de alimentação. Eduardo toma chopp, Marina suco de laranja. Percorrem sem rumo algumas ruas da cidade, o carro em marcha lenta, faróis baixos iluminando um ou outro casal de namorados dizendo adeus na porta de casa. Lá pelas nove, estão em casa.

Ele coloca música, ela prepara algumas bobagens para comer. A pequena cachorra esparramada na sala, jornais desarrumados na mesa, pensamentos indefinidos. Marina está na cadeira de frente para Eduardo. Pega a revista, ajeita os cabelos atrás da orelha, de vez em quando levanta os olhos para o marido com um pequeno sorriso. A paixão pelo cinema invade a casa. Tudo na vida poderia ser como filme: música de fundo, o casal apaixonado trocando olhares, o close demorado, desses que ficam na memória, no belo rosto de Marina.

Eduardo e Marina ficam se olhando sem saber, o domingo adormecendo, a lua cheia despontando na janela.

O primeiro dia da primavera

É o primeiro dia da primavera. A mãe repousa sob uma paineira. À sua frente, um imenso campo de grama seca, a terra esturricada. Não chove, mas a minha alma está úmida. O declive acentuado do campo termina em um lago artificial, onde casais de patos nadam, sem preocupação, aproveitando a serenidade do lugar, seus movimentos quase nem se notam na água, são patos de cemitério, silenciosos como todos os outros que ali se quietam.

Em outros campos, a mãe aproveitava o amanhecer, mesmo nesta secura, com enxada na mão, cortando matos que cresceriam à primeira chuva. Não importava. Quando o sol ameaçava, ela se sentava à sombra e, com as mãos, continuava a arrancar as pragas da terra. Vencida pelo sol, a mãe abria um livro à sombra e continuava cuidando do espírito, agora se alimentando de letras e conhecimento. À tardinha, hora de regar, enquanto fazia suas orações. Em suas mãos, plantas vicejavam, flores se mostravam, mesmo a mais reticente muda dava sinais de que despontaria. Mistério, mães carregam mistérios em seus toques.

É o primeiro dia da primavera. Se ainda pudermos confiar nos desígnios do tempo, chove em poucos dias. Primeiro as torrentes, lavando o pó com violência, provocando correntezas de lama e lixo, acompanhadas de relâmpagos e trovões. A mãe não gosta, desde criança se esconde, não se sabia onde, de relâmpagos e trovões. Depois, a chuva miúda, a molhar a terra de verdade, dias de nuvens, neblina, de almas úmidas. A mãe gosta. Senta-se na varanda, aspira o cheiro bom da terra, deixa seus olhos envoltos pelo verde que toma conta de tudo. Não se importa nem mesmo com o mato, aquele que arrancara dia-a-dia a romper de repente.

Em pouco tempo, esse campo esturricado estará coberto pela grama verde, as folhas desta paineira vão renascer e cobrir o repouso da mãe. E quando tudo estiver do jeito da mãe, quando uma flor crescer bem ao lado de seu descanso, elevada, serena, ela nos dirá: aquietem seus corações, deixem a alma úmida, pois é bom, mas voltem a sorrir. Vejam como o dia está bonito, voltem a sorrir. Eu amei e fui amada. Nada me falta agora que posso deixar meus olhos na imensidão deste mundo de Deus.

O velho na porta do quarto

Abri os olhos na escuridão da madrugada. Em frente à porta, estas portas de duas bandas dos quartos de casas do interior, estava sentado um velho. Cabelos brancos cortados rentes, roupas cinzas, grossas, sujas, como se acabasse de voltar do trabalho da roça. Estava sentado em um tamborete, baforando seu cachimbo negro, enchendo de fumaça e medo o quarto. A escuridão era total, mas o velho estava ali, na minha frente, como se iluminado por uma luz fraca, recortando-o do negrume do quarto.

Fechei os olhos, escondi a cabeça debaixo do cobertor. É um sonho, o resto do sonho. Impossível. Era tão real que eu poderia tocá-lo se tivesse coragem para me levantar. Mesmo debaixo do cobertor, que me sufocava cada vez mais, eu podia sentir o cheiro do cachimbo, da fumaça asfixiante entrando pelas frestas da cama. Esperei alguns minutos sem pensar em nada mais a não ser o velho na porta do quarto.

Coragem. Sou apenas um menino, é hora de mostrar coragem. Para quem? Estou sozinho nesse quarto escuro. Mãe!… Porque esses tios do interior colocam janelas e portas de madeira tão densas, tão perfeitas em seu fechamento que não permitem entrar sequer a luz do poste da rua, tão fechadas em si mesmas que nem a lua cheia dessas noites de inverno consegue deixar um ponto de luz que seja no chão do quarto.

Coragem. Abaixei devagar o cobertor, tentei acostumar os olhos à densa escuridão olhando primeiro para o teto. Deixei o cobertor na altura do queixo, levantei a cabeça na direção da porta. Respirei fundo, pensei em coisas boas: beijo de mãe, brincar de tico-tico-fuzilado depois da chuva, pegar o boletim na escola com média azul em matemática, dar voltas na praça em sentido contrário à menina que eu tinha certeza amaria por toda a vida. Abri os olhos. A fumaça asfixiante, o velho calmo, bonito, agora vejo, bonito como um avô, continuava sentado na porta do quarto. Imóvel, olhos fixos em mim como se nada mais pudesse fazer. A beleza daquela visão não afastou o medo. Medo cada vez maior. Vontade de gritar, chamar pela mãe dormindo no quarto ao lado, mas só consegui me enrolar debaixo do cobertor.

Não sei quanto tempo fiquei assim, quanto tempo suportei a falta de ar debaixo daquelas vestes grossas, pesadas, cheirando a guarda-roupa. Não sei se dormi e acordei, dormi e acordei; perdi aos poucos a noção do tempo, das coisas, dos pensamentos, desejava o amanhecer.

Ouvi o barulho das pesadas janelas de madeira se abrindo. A mãe puxou o cobertor, estranhando aquele exagero todo. “Fez frio essa noite, heim!”. Sim. Frio, medo. Depois o calor debaixo da coberta, o cheiro do fumo, do suor daquele velho, aquele velho sentado ali na porta. As portas do quarto estavam abertas, cada banda encostada em uma parede. A mãe dobrou cuidadosamente a roupa de cama. As janelas deixavam entrar a luz do sol. Toda janela agora tem que estar aberta, entro por ambientes abrindo cortinas, persianas, janelas, abrindo janelas.

Nunca mais vi o velho da porta do quarto. Às vezes, vejo coisas tenebrosas em meus sonhos e quando abro os olhos o resto me envolve. Fecho os olhos e espero que a imagem desapareça até ficar apenas o medo do que foi, do que pode vir dessas noites incompreensíveis.

Natália

O velho homem acordou com o grito: “Natália”. Abriu os olhos e tentou virar a cabeça para um lado, para o outro, percorrer o quarto em busca de alguém. Alguma coisa prendia seu pescoço, ele podia sentir os tubos enfiados em sua boca e só conseguiu olhar para o alto. Revirou os olhos e vislumbrou as cortinas, mesmo com a visão embaçada pode perceber a cor encardida e gasta do tecido branco.

– Bom dia Seu Cláudio. Como está passando hoje Seu Tarcísio. É só uma picadinha Seu Antônio… – ouvindo a enfermeira, compreendeu onde estava. De olhos abertos, fitando o teto, esperou ouvir uma voz conhecida, a mão amiga apertar sua mão num gesto de consolo e tristeza. Mas a única presença foi da enfermeira. Ela desembrulhou alguns equipamentos e remédios, disse algumas palavras de carinho enquanto media a pressão, regulava o soro, aplicava injeção, o ritual lento e doloroso de tentar infundir-lhe esperança. Ele voltou a adormecer.

O frio da tarde do litoral paulista afastou todas as pessoas da orla naquele dia. O dia amanhecera claro, iluminado, depois de três dias de chuva fina e fria. No entanto, o mar estava naquela incompreensível revolta. A ressaca levava as ondas até a parede do calçadão, a água batendo com fúria, espirrando nos poucos curiosos que venciam o medo para ver este espetáculo da natureza, o perigo rondando a explosão de água e espuma, como se mais hora menos hora o mar fosse tomar conta da rua.

Ele não podia perder. Passou o dia andando pela cidade, indo de uma praia a outra. No fim da praia central, a rua subia por uma colina, local dos apartamentos dos mais ricos. A vista dos últimos andares deve ser esplendorosa, pensou enquanto andava em direção ao topo da colina, onde a rua fazia a curva e começava a descer em direção à outra praia. Na curva, moradores e turistas se reuniam para a vista do mar, quase sempre no final de tarde. Outros armavam suas varas de pescar, equipadas com grandes molinetes capazes de arremessar a linha além das ondas.

Neste dia, a colina estava vazia. Sozinho, ele esperava o mar bater com violência no penhasco. Chegava então o pescoço sobre a amurada e olhava para baixo a tempo de ver as águas escorregando rochas abaixo, deixando as pedras cor de musgo. Segundos depois, o mar voltava violento, batia no paredão de pedra, respingando em seu rosto assustado que rapidamente recuava.

No final da tarde, o mar se acalmou, voltou ao seu leito normal, deixando à vista a imensa faixa de areia molhada. O sol frio incentivara alguns poucos moradores e turistas a passear pelo calçadão. Antônio sentou-se no banco da praia central, de frente para o mar.

Uma menina corria pela areia como se a praia fosse inteiramente dela. A menina sentou-se na praia deserta, pouco se importando com a umidade em sua bunda, em suas pernas. Ela passou a revirar a areia molhada, tentando moldar alguma coisa que ele não conseguia enxergar. Ajoelhada, a menina dava voltas no monte que subia aos poucos, as mãos repetindo o gesto de descer do topo até a base, alisando a areia. Depois, começou a cavar pequenos orifícios dos lados, totalmente curvada, quase beijando o pequeno monumento. Ele imaginou a areia molhada entrando nas unhas da menina, deixando pingos em seu rosto, o vento embaraçando seus longos cabelos.

A menina ficou uns quinze minutos nessa desajeitada brincadeira. Por fim, se levantou, esticou os braços para o alto, bateu as mãos no peito, nos braços, na bunda, nas pernas, tentando se limpar da areia. Passou a andar por uma pequena extensão da praia, a cabeça baixa, chutando areia com os pés. Às vezes, se abaixava, pegava alguma coisa, olhava atenciosa para a palma da mão, jogava o objeto no chão e voltava a caminhar. Andava até um certo ponto, se virava na direção do mar, caminhava mais alguns metros e voltava na mesma direção, para perto da construção de areia que fizera, percorrendo outra faixa da praia. Assim foi fazendo espécies de retângulos, descendo lentamente em direção ao mar.

Um casal de idosos parou perto de Antônio. Estavam bem agasalhados, a senhora com o braço enfiado no braço do senhor. Ficaram alguns segundos olhando a menina na praia. A senhora disse alguma coisa bem baixo, ambos sorriram e voltaram a caminhar.

De repente, a menina começou a correr em direção ao mar. “Natália”, “Natália”. O grito ecoou nos ouvidos de Antônio e só então ele percebeu a jovem mulher sentada em outro banco, poucos metros adiante. Ela se pôs rapidamente de pé, chegou até perto da grade que separava o calçadão da praia, as mãos em concha na boca. “Natália”.

Antônio fez gesto de se levantar, pensando em correr para a praia, mas a menina parou quase na divisa com as águas e voltou. Ele pode ver, mesmo à distância, a beleza dos olhos infantis procurando a mãe. A menina começou a caminhar lentamente de volta e parou perto da escultura de areia. Começou a chutá-la, espalhando areia para a frente, para os lados, pisou em cima com força, deu alguns pulos, socando a areia. No fim, quase exausta, olhou com um sorriso vitorioso para a mãe. Ela observava preocupada a menina. Os olhos de Antônio ficaram entre a mãe e a menina, que agora estava bem perto da escada do calçadão.

Antônio levantou-se e começou a andar, um sentimento repentino de solidão. Parou e se voltou a tempo de ver mãe e filha caminhando de mãos dadas, de costas, em sentido contrário a ele. Teve uma vontade incompreensível de gritar “Natália”.

Esse grito que agora bate em sua mente e o faz despertar na solidão fria e sem vida da enfermaria.

O aniversário da menina

Pensei que era apenas mais um namorado, até que ela anunciou-se grávida. Ela já dissera em conversas reservadas que se chegasse aos trinta solteira partiria para a produção independente.

A filha nasceu provocando uma revolução naquela mulher. De adolescente rebelde, jovem mais preocupada com festas, bares e noitadas, a mãe caseira, gastando todo o tempo que tinha depois do trabalho com sua pequena.

O jovem pai era intermitente. Era visto em aniversários, reuniões, depois, sumia. Falavam em casar, juntar, mas não passava disso. Uma noite, na casa da namorada, pediu o carro do futuro sogro emprestado. Saiu, quase madrugada, dizendo que voltaria dali a pouco. Desapareceu durante três dias. Outro pai entrou na história. Ele já conhecia o enredo do filho desde a adolescência e sabia onde encontrá-lo. Partiu para aqueles pontos obscuros que todos temem e muitos insistem em freqüentar. Encontrou o carro depenado, sem rodas, sem ferramentas, sem acessórios. Conseguiu resgatar tudo a custo da experiência em negociações que ganhara nesses casos. Devolveu o carro, pediu desculpas, levou o filho consigo para mais uma temporada em clínicas.

Revelou-se o segredo daquela luta silenciosa e permanente. O jovem desapareceu durante dois anos. As notícias vinham de seu pai: está no interior de São Paulo. Entre uma clínica e outra, notícias mais desanimadoras: tirou TV, som, até roupas, tirou tudo da casa dos pais. O pai, diziam alguns, entregara os pontos. Nas vezes em que era visto, tinha sempre os olhos tristes, semblante cansado. Logo depois, sabia-se que estava acompanhando o filho, agora em uma fazenda no interior de Minas.

No aniversário de dois anos da menina, voltei a ver o jovem pai. Contou que estava trabalhando na fazenda e não pretendia voltar para Belo Horizonte. Parecia nervoso, inquieto, andando pela casa atrás da filha. Depois dos parabéns e fotos de costume, ele pediu que todos na festa se reunissem na sala.  Ficou algum tempo calado, depois se levantou  e falou abertamente.

– Acho que todos sabem do meu problema. Não me arrependo das coisas que fiz, é a minha vida. Arrependo-me do que não fiz, principalmente de não ter visto a minha filha crescer. Tirou as alianças do bolso e fez o pedido de noivado. O pai dele, encolhido no sofá, não tinha os olhos tristes. Pareceu-me muito mais um olhar atento e cuidadoso.

A menina brincava com sua mais nova boneca no chão da sala, estranhando aquele mundo de gente ao redor. De repente, ela tentou se levantar, tropeçou na boneca quase do seu tamanho e caiu, rosto no chão. Várias mãos acudiram ao mesmo tempo, mas as do jovem pai chegaram primeiro. Levantou a filha, apertou-a contra o peito, embalando-a carinhosamente. A menina ficou ali, no colo do pai, o choro acabando aos poucos.

Os convidados foram se retirando. O jovem pai foi embora. Foi a última vez que o vi.