A cada passo perdido
encontro seu rastro marcado
por cada luar desprotegido
chamo uma estrela envolvente
então a gente diz chega
para não cessar jamais
aquele desejo ardente
que faz da saudade a nascente.

Caminho pela madeira lapidada
por lápides sem nomes escritos
somente sua sombra gravada
na vitrine de pedra do aguaceiro.

Por cada mente envolta por luares
sonho seu corpo envolto por meus braços
por cada pensamento na solidão do espelho
dou um passo na multidão
a cada rua desarticulada
a cada sorriso desprovido
encontro seu olhar de foto desbotada.

Não sei por que mas eu te amo
tantas vezes cruzei seu tempo
mas nunca falei contigo
medo estenderás seu nome?

Em cada matilha debandada
vejo um rosto em detrimento
em cada sonho atropelado
penso ser o único que te procura
em cada pergunta demolida
creio ser sozinho no mundo
em cada beijo desperdiçado
relembro beijos eternos
que nunca provei.

És um velho
como velho é o sol que se põe
tão velho que nem o tempo pode esquecer.

És solitário
como a rosa que não morreu com o inverno
debaixo da neve cristalina.

És forte como um selvagem
e bêbado como o mais bêbado da noite.

Pode ser fraco
como a luz que se vê ao longe
bem ao longo, na estrada das fraquezas.

És triste
como o eremita
quis ser triste.

És alegre
calma alegria
não se iluda com ele.

És traiçoeiro
fere, sangra
e pensa morrer

Porque és também um assassino
um suicida
o bem da vida
és o amor
que mata sem pensar.

Abro os olhos de manhã
mas para alguém não houve amanhã
já não há sol, seus olhos
abrem-se eternamente.

No caminho, pessoas sorriem
nem sabem do sorriso desfeito
de alguém que não sofre mais
mas que gostaria de chorar
por um amigo perdido.

Já não é de manhã
a noite o levou
afogado, perdido nas águas
corpo sem alma.

Seus olhos saíram
para buscar a manhã
agora, nem flores brotam
onde a morte o encontrou. 

Alice e a Bruxa do Oeste

Alice deitou a cabeça em meu ombro e me apertou com força. A Bruxa do Oeste fazia malabarismos com sua vassoura, deixando no céu, em um rastro de fumaça, uma frase de alerta a Dorothy. A reação de Alice às aparições da Bruxa era se aproximar cada vez mais. Primeiro, olhar amedrontado, depois, leves arrepios sentidos no toque dos braços, finalmente, a cabeça apoiada no ombro, as mãos enlaçadas em meu antebraço.

Pouco depois, o filme ganhou aquele ar soturno, as cores berrantes do Technicolor deram lugar a nuances desbotadas. Dorothy e seus amigos penetravam na floresta mal assombrada em direção ao castelo da Bruxa. Alice tremeu levemente e, pela primeira vez, passei o braço por cima de seu ombro, apertando-a, roçando meus lábios em seus cabelos… Um estrondo ecoou no cinema. Imediatamente as luzes e a projeção se apagaram, a sala ficou às escuras. Gritos temerosos, tumulto, o rosto de Alice em meu peito.

Pequenos pontos luminosos surgiram nas laterais. Os lanterninhas gritavam “calma, calma”, “não se assustem”, “sem correria”. Em vão, meninos já corriam pelos corredores. Um lanterninha subiu no palco e gritou: “é apenas uma queda de luz, fiquem sentados, fiquem sentados, daqui a pouco a luz volta…”

Os meninos sossegaram aos poucos, ouvi uma frase solta: “um ônibus bateu no poste aí em frente.” Afaguei os cabelos de Alice. “Vou ver o que aconteceu”. Ela me olhou desolada, talvez pensando na Bruxa do Oeste, se ligando a esses acasos que transformam a simples queda de luz em presságios sombrios. “Não saia daqui”. Ela assentiu com a cabeça e, naquele breve instante de olhos recíprocos, a vontade de buscar o que meus sentidos pediam desde que Dorothy cantou “Over the rainbow”: 

“Não demoro”. Segui pelo corredor até o banheiro nos fundos do cinema. A janela dava para a Av. Amazonas. Do outro lado da avenida, pequena confusão se formava em frente ao ônibus em cima do passeio. A visão do alto deixava claro o acontecido: o ônibus batera no poste, a frente do veículo estava achatada, como a enlaçar o poste.

Era fim de tarde de domingo, aquela parte do bairro estava sem luz, escuridão total começava a tomar conta do cinema. Voltei para perto de Alice. Ela estava mais calma, conversava com as amigas. Todos já sabiam do acidente. Alguns minutos depois, o lanterninha subiu novamente no palco e avisou que não poderíamos esperar mais. Pediu que saíssemos do cinema com calma, em fila. Na porta, cada um receberia um ingresso válido para a próxima semana.

No domingo seguinte, voltei ao cinema sem Alice. Dorothy também não estava comigo. Era outro filme, O Mágico de Oz saíra de cartaz.

Cerca de quinze anos depois, tarde da noite, apaguei as luzes da sala e coloquei a fita no videocassete. Quando Dorothy começou a cantar “Over the rainbow”, eu já estava nas lembranças daquela tarde. Os personagens entraram na floresta mal assombrada. Assisti finalmente ao resto do filme neste estado insensato a que sou levado por filmes do passado. Dorothy acordou em sua casa no Kansas repetindo “não há lugar melhor do que o nosso lar”. Fiquei ainda um tempo na escuridão da sala, como naquela tarde no cinema da minha adolescência. Tentei, inutilmente, relembrar o gosto dos lábios de Alice.

Fui sócio de um sonho
mas o vendi
para poder sonhar de novo.

Tentei fazer da ilusão
uma porta entreaberta
mas me perdi de medo
em um cofre de sete mil trancas.

Quis apenas sonhar
mas é daí?
nada pode contra a realidade
há não ser encontrar
uma das sete mil chaves
e sonhar outra vez. 

Cartaz de filme

Eram os primeiros anos da década perdida. Eu saía do emprego na Rua Rio de Janeiro e caminhava pelo centro da cidade até o ponto de ônibus. O centro ainda não tinha todo esse emaranhado de pernas e carros, mas as pessoas já iam para casa com ansiedade. Na Avenida Paraná, trabalhadores, donas de casa, adolescentes se amontovam no final da tarde debaixo das placas azuis: 1505 – 1504 – 1503. Números marcando o destino.

Quando o ônibus parava, pouco importava sexo ou fragilidade, a pequena multidão disputava a porta do ônibus. O coletivo demorava a arrancar, o motorista insistia em fechar a porta travada pelos passageiros, a vontade de chegar em casa se sobrepondo ao instinto de sobrevivência. Quando a porta fechava, sobrava nos rostos das pessoas a sensação de vitória e desalento. Vitória pelo embarque; desalento pelos cerca de 30, 40 minutos que passariam espremidos, com a sensação de sardinha em lata, expressão comum na época para designar coletivos em horário de pico.

Várias vezes eu deixava passar um, dois, três ônibus, esperando inutilmente o desafogo da multidão. Passei a adiar minha chegada ao ponto, dando volta pelos cinemas da cidade. Primeiro no Palladium; descia a Goytacazes até o Metrópole; dali pela Afonso Pena, parava no Acaiaca; subia a Tupis com destino ao Jacques; passava em frente ao Tamoios; gastando tempo no fascinante hábito de olhar cartazes de filmes.

Eu ficava alguns momentos parado no saguão de entrada de cada cinema, olhando as fotos dos cartazes, nomes de atores, atrizes, diretor. Às vezes, anotava a data de estreia à lápis num pequeno bloco. Outras vezes, apenas antecipava na mente o filme, especulando, a partir do gênero, personagens, tramas, desfechos. Bons tempos. Ainda não existia a Internet com trailers, resenhas, críticas e tudo que infesta a rede nessa poderosa estratégia de marketing, acabando com o glamour e a surpresa do cartaz do filme.

Em um início dessas noites, a cidade se mostrou mais confusa, as pessoas mais ansiosas, o coração me pesou, o futuro pareceu incerto. Parei na porta do Cine Palladium. Em cartaz: Blade Runner – O Caçador de Andróides, de Ridley Scott.

Comprei ingresso e entrei, sessão quase vazia. Cerca de duas horas depois, quando os créditos começaram a subir pela tela, continuei sentado. As poucas pessoas apressadas tomaram seu rumo. Esperei os nomes sumirem na tela, a música cessar.

Não me levantei. Aos poucos, foi entrando gente para a próxima sessão. O filme começou novamente. Pensei, posso ficar, mais à noite os ônibus passam vazios. Pensei, posso ficar dentro do cinema um pouco mais.

Eu tenho um castelo encantado
e uma princesa
eu tenho um sol para brilhar meu castelo
e uma lua para encantar
as noites de meu castelo encantado
eu tenho um corpo
que nada no lago que eu tenho
eu tenho o azul e o verde
tenho uma árvore, um passarinho que canta
tenho um grilo de canções entristecidas
não tenho relógio e nem dinheiro
e meu castelo é em nuvens de algodão
onde mora minha querida Shirley
cristalina, encantada
como todos que morrem cedo
ela me chamava de poeta
porque naquele tempo
já lia com olhos de anjo.