De onde saiu você
daquelas conchas
que se cata na areia
última página de
romance policial
filme água com açúcar

De onde saiu você
de salada de fruta
cheiro de hortelã
siesta na Espanha
gole de coca-cola
com gelo e limão

De onde saiu você
mulher cheirando a banho
cama com lençol lavado
chuva na vidraça
cerveja na varanda
na hora do pôr-do-sol

De onde saiu você
camelot, atlântida, liliput
e se for do planeta mongo
cheia de poderes para o bem
para o mal, para não me deixar
mais sair de você

Chove dentro e fora de mim
sexta-feira de um janeiro
repentinamente frio
jornais dão conta
de buracos e lama nas estradas
até as plantas
lamentam esta água sem fim.

Madrugada sem alma
entre Bandeira, Pessoa
e uma taça de vinho
relembro janeiros passados
e a mulher que amei.

Chove dentro e fora de mim.

Humphrey

Humphrey Bogart. Você se parecia com Humphrey Bogart naquela noite de chuva. – Elza bateu com força a pequena pá de jardim na terra seca, tentando cavar um buraco, pequeno que fosse.

– Lembra? Sapatos pretos, uma das mãos no bolso do sobretudo cinza, daqueles que a gente só vê no cinema, a outra segurando o cigarro nos lábios, um charme!, chapéu cinza.  A aba do chapéu, levemente inclinada, fazia sombra no seu rosto. – as mãos doíam, ela pegou o regador e molhou um pouco mais a terra, com cuidado, jogando água nos rasgos que já fizera, ajudando com a pá, tentando penetrar no solo resistente.

– Você se escondia da chuva, debaixo da marquise, encostado na porta lateral da igreja. A luz da rua fraquinha, piscando, o tempo estava tão ruim. Em noites de chuva, a praça ficava vazia, os pais não confiavam, mandavam chamar, pra casa!, a cidade deserta, nem as estrelas apareciam. – deixou a pá de lado e tirou a terra do buraco com as mãos.

– Como é mesmo o nome do filme? Isso. A Condessa descalça. Muitos anos depois, vimos o filme no Cine Brasil. Acho que é uma das primeiras cenas, Humphrey Bogart na chuva, assistindo a um enterro. Quando a gente ia ao cinema você nunca olhava para mim, olhava fascinado o tempo todo para a tela, às vezes me dava um ciúme. Mas eu fiquei olhando para você e descobri que na noite em que te vi pela primeira vez, debaixo da marquise da igreja, você se parecia com aquele ator de chapéu e sobretudo na chuva.

– Humphrey Bogart, trabalhou em Casablanca, O tesouro de Sierra Madre, você me disse entusiasmado quando perguntei o nome daquele homem charmoso. – Elza colocou a muda, ainda com o plástico preto em volta, no pequeno buraco.

– Nome complicado. Falta pouco agora.

Ela retirou a muda, molhou mais um pouco a terra, a água formou uma pequena poça, demorando a  infiltrar. Voltou a escavar lentamente, a ponta da pá fazendo pequenos rasgos, as mãos doendo, princípios de calos latejando na confluência dos dedos.

Retirou o plástico preto da muda, espalhou um pouco de adubo no buraco, em seguida uma pequena medida de esterco. Colocou cuidadosamente a planta no lugar, misturou terra preta, esterco e húmus em uma vasilha, espalhando a solução em volta da muda. As mãos ajudavam a terra fértil a tomar seu lugar, o buraco do terreno árido ganhando uma cor viva, a muda pronta para florescer. Nivelou a terra na superfície, por fim molhou com carinho o seu trabalho, a água infiltrando rápida, fácil.

Elza levantou-se, as mãos nas costas tentando parar a leve dor, pequenas pontadas, – nada de mais na minha idade. O sol já encostava na montanha, deixando o céu no tom amarelo de que tanto gostava. Era hora de sentar na varanda, aproveitar a última luz e contemplar suas plantas, suas flores, seu recanto agora solitário.

Abaixou-se novamente, roçou a palma da mão levemente nas minúsculas folhas de murta, como se formasse uma aura em volta de toda a planta. Duas lágrimas escorreram por seu rosto.

– Você se parecia com Humphrey Bogart, meu querido.

Ela disse, depois de cheirar
meu peito corrompido
– esse perfume não é seu
é o que restou de amar
seios e regaço
de outra que te prendeu
e levou da crença um pedaço.

Farejou como cão bramido
o rastro de seu dono traído
Agora sem paz ela dorme
na certeza da noite sem nome.

Hoje amanheceu para grandes paixões
daquelas que vazam o dia 
e a solidão dos casais
um certo ar molhado em volta
um resíduo estranho de sonho.

(pena, não posso ter essa grande paixão
se ao menos chovesse e a encontrasse na rua)


De qualquer maneira
volto para casa à noite
assisto o jornal, tomo banho
depois durmo
pensando na grande paixão
que seu perdeu no dia.